O corpo que não pára.

 

Nos últimos anos tem sido cada vez mais frequente falar-se de crianças com hiperatividade e que têm dificuldade em parar e em estarem atentas. Muitas vezes os pais referem comportamentos como: “não para quieto(a)”; “não consegue manter-se sentado(a) a fazer os trabalhos de casa sem estar constantemente a mexer-se”; “não conclui o raciocínio numa conversa, está sempre a saltar de assunto”; “mexe em todos os brinquedos mas acaba por não se manter mais do que uns segundos a brincar com cada um”; “a relação com os colegas é difícil porque não para quieto(a)

e não consegue fazer um jogo de grupo até ao fim”; “levanta-se durante a aula sem permissão”; entre muitos outros que têm um impacto negativo no dia-a-dia da criança, quer na sua aprendizagem, quer na forma como ela se vê a si própria e na relação com os outros (família e pares)

 

Agitação Psicomotora, o que é?

 

Antes de mais, é importante salientar que neste artigo a hiperatividade não se refere a um diagnóstico, mas sim a um comportamento agido da criança, tal como o próprio nome indica: hiper– (excesso), –atividade (ação, ativo).

A agitação psicomotora, também designada por hiperatividade, só por si, não constitui um diagnóstico. Porém, é um sintoma que pode ter na sua origem múltiplos fatores, desde fatores neurológicos, biológicos e genéticos, a fatores do contexto onde a criança está inserida, ou a fatores de ordem emocional e afetiva. Na prática clínica, percebe-se que o domínio emocional e afetivo tem elevada influência neste tipo de comportamento, e isto pode ser justificado pela dificuldade da criança em pensar, elaborar e expressar as suas emoções e o seu sofrimento pela via verbal, utilizando este comportamento como forma de expressão corporal dessa angústia.

Ao mesmo tempo, a sua dificuldade em pensar e expressar o que sentem internamente (as suas emoções, preocupações) também se traduz numa dificuldade em sentirem o seu corpo, conduzindo a uma maior propensão para agir para se sentirem.

 

Agitação Psicomotora, como se expressa?

 

A agitação psicomotora é caracterizada, essencialmente, pela presença de:

Excesso de atividade motora;
• Dificuldades em regular e manter a atenção;
• Dificuldades na regulação emocional e elevada reatividade;
• Pouco domínio sobre os movimentos do corpo;
• Dificuldades na mentalização e expressão das emoções;
Comportamento agido e com pouca intencionalidade.

Para além desses sinais mais comuns, sabe-se que crianças que apresentam um comportamento predominantemente hiperativo evidenciam também problemas psicomotores específicos nomeadamente dificuldades ao nível da:

Tonicidade, habitualmente são crianças hipertónicas, ou seja, com rigidez e tensão muscular quase permanente em todas as suas ações/atividades;
Equilíbrio, influenciado por essa hipertonia;
Noção do corpo e do espaço, apresentando pouca consciência dos seus limites corporais; das dimensões e movimentos do corpo; da relação e posição do seu corpo no espaço; e, muitas vezes, pouca noção dos limites entre si e os outros, o que dificulta as relações interpessoais;
Coordenação motora, influenciada não somente pela hipertonia e défice no controlo do tónus, mas também pela fraca noção corporal.

Ou seja, estas crianças revelam uma pouca consciência do seu corpo e dos seus movimentos e uma pobre perceção e análise do espaço, o que conduz a ações e comportamentos pouco intencionais face àquilo que é exigido em determinada atividade.

Por estas razões, estas crianças são frequentemente apelidadas de “trapalhonas”, fator que pode desencadear impacto negativo na sua autoestima, na autoconfiança para a realização de determinadas atividades e, por vezes, desenvolve comportamentos de isolamento social;

Motricidade fina, por um lado pelos défices de outros fatores psicomotores, como a tonicidade, equilíbrio, noção de corpo, estruturação espaciotemporal e motricidade global que impedem a realização satisfatória da produção escrita ou do desenho, levando à desmotivação e desinteresse; por outro lado por ser, do ponto de vista neuromotor, a atividade motora mais complexa, é também aquela que exige mais concentração e controlo dos movimentos, duas áreas que estão comprometidas nas crianças com agitação psicomotora.

Que tipo de intervenção é necessária?

 

Tendo em conta a multiplicidade de fatores que podem estar na origem de um comportamento mais agido e hiperativo, torna-se então fundamental uma avaliação multidisciplinar para uma plena compreensão da problemática (do seu funcionamento cognitivo e social, do contexto familiar e escolar, de possíveis comorbilidades com outros sintomas) e que oriente para a intervenção terapêutica mais adequada a cada criança. Considerando que as dificuldades adaptativas das crianças com hiperatividade se tendem a manifestar nos diversos contextos da vida, é necessário que a intervenção envolva a criança, a equipa terapêutica, a família e a escola.

 

Como pode a Psicomotricidade ajudar na Agitação Psicomotora?

 

Na intervenção com estas crianças, a Psicomotricidade surge como uma possibilidade terapêutica na medida em que é uma terapia que se desenvolve a partir do corpo em ação.

Na Psicomotricidade o enfoque não está na expressão verbal mas sim na expressão corporal, que é exatamente a via pela qual se expressam as crianças com agitação psicomotora e que, como já foi descrito, muitas vezes não conseguem expressar por palavras o que sentem e as suas dificuldades, e expressam-no através do corpo (pela agitação, impulsividade, comportamentos agressivos, entre outros). Ao mesmo tempo, a Psicomotricidade tem uma forte componente lúdica que vai ao encontro dos interesses e motivações da criança, o que favorece a sua adesão.

Na intervenção psicomotora, o psicomotricista vai perceber como é que a criança se organiza, como se relaciona consigo própria, com o terapeuta, com o espaço e com os materiais, aspetos fundamentais e que lhe trazem informação acerca de como se deverá iniciar a intervenção e a metodologia mais adequada para aquela criança. Independentemente da metodologia utilizada, o psicomotricista terá sempre como objetivos:

• Trabalhar a relação entre a ação/atividade da criança e o seu pensamento, ou seja, a sua capacidade de agir de forma mais intencional e mais consciente sobre si e sobre o que a rodeia;
• Ajudar a criança a agir de forma mais construtiva, diminuindo a necessidade de estar continuamente em movimento;

Aumentar a consciência do corpo, dos seus limites corporais, e o controlo corporal;
Aumentar o planeamento dos seus movimentos para que se tornem cada vez mais coordenados e intencionais;

Desenvolver as competências sociais, nomeadamente aumentar a capacidade de diálogo, de aceitar e discutir a opinião do outro e em participar na construção de ideias coletivas.

De acordo com isso, o psicomotricista poderá privilegiar:

• Atividades menos diretivas, como o jogo simbólico e espontâneo (que permite à criança espelhar as suas emoções, reviver situações ou sentimentos, e permite ao psicomotricista entender como a criança vive as emoções, de onde vêm determinados comportamentos, como ajudá-la a regular e expressar essas emoções e comportamentos de outra forma);
• Atividades mais diretivas (como jogos funcionais e jogos de regras que valorizam as competências sociais e promovem o desenvolvimento da cooperação e descentração da criança, muitas vezes virada apenas para si própria);
Relaxação terapêutica que promove uma maior consciência de si e das suas emoções, mais controlo dos impulsos e da agitação psicomotora.
• Atividades expressivas que permitem à criança exteriorizar as suas preocupações, medos e emoções.

Porque motivo é importante intervir precocemente?

 

Como é possível perceber pela descrição das dificuldades psicomotoras que estas crianças podem apresentar, elas não se encerram no domínio psicomotor, pois têm na sua maioria impacto negativo no seu domínio emocional e relacional. É por isso de extrema importância a intervenção atempada com crianças com agitação psicomotora, na medida em que o perdurar deste comportamento pode desenvolver outras fragilidades na criança, como perturbações da ansiedade, perturbações depressivas, isolamento social, baixa autoestima e autoconfiança, dificuldades nas relações interpessoais, dificuldades de aprendizagem, entre outros.

Em síntese, a Psicomotricidade assenta a sua intervenção no corpo em movimento e atua ao nível da capacidade de sentir e pensar o corpo, desenvolvendo a relação entre os domínios cognitivos, emocionais e do movimento da criança. Por esta razão, a Psicomotricidade é uma intervenção terapêutica com resultados positivos nas crianças com comportamento agido e hiperativo.

 

Sara Duarte
Psicomotricista / Técnica Superior de Reabilitação Psicomotora – Crianças e Adolescentes

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